24 de julho de 2017

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   Recordo-me de que era costumeiro falar-se na silly season da blogosfera. Também ela cedia à apatia do Verão, ao afastamento expectável quando as pessoas gozam das suas merecidas férias. Só que a blogosfera foi de férias e não mais regressou, como aquela loja de variedades do lado esquerdo de quem vai para Santa Apolónia. Está lá o papel afixado na porta, sujo, amarelecido, "encerrado para férias". Até hoje.

    A blogosfera que resiste, o reduto, é uma feira de vaidades e de compadrios. Aquela em que desde sempre me inseri, em abono da verdade, com alguma excepção pontual, nunca foi erudita por aí além. Eu, entretanto, e como me recordo de o ter dito, não faço distinção. Atento mais nos autores do que nos blogues, ou seja, o sentimento que me ligava a determinado autor fazia com que me interessasse pelo seu espaço. Às vezes, ria-me dos disparates, e ria-me inclusive da minha persistência em ler o que pouco me enriquecia.

     Até esses se foram, ou vêm esporadicamente. O facebook, que se foi impondo gradualmente, deu uma machadada em todas as redes sociais, e o Blogger não lhe foi imune. Por lá, muito embora a liberdade de expressão, inclusive a artística, possa estar condicionada, permite-se o mesmo. Textos, fotos, gifs, vídeos, com uma interactividade única e uma capacidade de reagirmos no imediato e de termos reacções ao que publicamos. Não há forma de o contornar. Aceitemo-lo.

     Pois bem, não que me tenha rendido ao facebook, de todo, embora o utilize, e cada vez mais, começo a pôr em causa o blogue - o que jamais havia feito. Os nove anos dão-me alguma autoridade e até, diria mais, à-vontade para colocar tudo nestes termos. Se o blogue era como que garantido, agora não o encaro assim. A vontade de continuar vai-se desvanecendo. Não pelas reacções às minhas publicações, antes que alguém assuma esta publicação como que um grito de revolta ou uma chamada de atenção; nunca fui popular, nunca escrevi a pensar nas pessoas que me leriam. No auge da blogosfera que conheci, escrevia sobre o que me apetecia, quando me teria sido mais fácil ceder ao populismo. Questiono-me sobre se fará sentido continuar porque pouco me demoro aqui, deixei de ler blogues, perdi o hábito de comentar (aliás, não sei o que ou quem comentar), logo, as minhas dúvidas são inteiramente pertinentes. Acresce uma certa desvirtualização, materialização do virtual, facilmente contornável, diga-se, assim o queira, em que me vi arrolado, e que, hoje, friamente, vejo que foi uma opção errada e até meio ingénua da minha parte.

      Não, não é uma despedida, o blogue vai continuar. E nem publicaria despedidas. Não tenho, em rigor, ninguém que o mereça, a par de escassos leitores. Escrever, como também venho deixando claro, quer em posts de aniversários, quer pontualmente, é-me uma necessidade. Gosto e, mais, preciso de o fazer, aqui. Como também precisei deste desabafo. Tal como, de 2008 a 2010, não seguia qualquer blogue e também não era acompanhado ou lido, é provável que torne este exercício de escrita ainda mais solitário, e que me encerre sobre mim mesmo. Chamemos-lhe uma reestruturação, ou de um outro modo de encarar um espaço que cultivo com carinho e que, independentemente de fases, me merece respeito.

12 comentários:

  1. Continua a escrever. Há sempre quem adore ler o que escreves, poderás inspirar tanta gente, como eu. Obrigado pelo que fazes

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    1. Obrigado eu pelas palavras e pelo carinho.

      Sim, continuarei. Foi um desabafo. Mas deu para ver que o blogue também pode ceder. A vontade é cada vez menor, infelizmente.

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  2. Meu amigo!

    Você tem o dom da escrita e não pode perder a chance de trabalhá-lo... Acho que essa é uma questão que volta e meia estamos a volta, eu não sei... No meu caso, o blogue surgiu em um momento em que precisava falar, precisava de um "amigo" que me ouvisse... não tinha tanta noção do alcance nem do que isso representaria...

    Confesso que tenho vontade as vezes de parar, agora "ficamos" alguns meses só no "segredos"... Mas me doi perder essa voz, perder essa ponte com tantas pessoas que já conheci. Meu blogue me trouxe grandes amigos, me ajudou tanto... que hoje o mantenho como uma parte de mim...

    Temos que evoluir é verdade... blogue, medium, facebook, qualquer coisa gram ou chat, acho que em algum momento vamos todos para outras plataformas, importante é não deixar esse espírito se perder.


    Abração grande e votos de uma ótima semana para ti!

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    1. O que me incomoda é a apatia. O Blogger está apático.

      Em 2010, por exemplo, dava gosto passar por cá. Havia um dinamismo. Gostava, inclusive, de ler as futilidades. Deve ser também o encanto que se perde.

      Bom, e foi através do blogue que nos conhecemos. :)

      um abraço grande.

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  3. Apesar de não comentar amiúde, acompanho-o de forma assídua.
    Comento quando considero que tenho algo a dizer.
    Não pertenço à "família do facebook", nem creio que tenha paciência ou mesmo vontade disso. Para perder tempo, pelo menos perco-o com coisas que me são verdadeiramente importantes e me dão prazer.
    A si leio-o com prazer, e fico sempre encantado por dar conta da sua lucidez, e até mesmo pela sua imparcialidade em assuntos algo complicados ou polémicos. Eu, muito mais velho, não sei se o seria.
    Se não continuar o blog (sim, sei que escreve que irá continuar, mas quando há uma quebra, as coisas começam, pouco a pouco, a desmoronar-se, acabando por ser um processo inevitável, ficando o blog abandonado num qualquer canto da virtualidade), e claro que ninguém coloca em causa que estará no seu direito, mas confesso-lhe que terei pena de perder a sua companhia, que, ainda que virtual e afastada, tem-me sido importante pelo assuntos que aqui traz, porque foi fazendo a conexão entre mim e uma camada mais jovem que me está arredada e aborda problemáticas que, doutra forma, me passariam ao lado.
    Mas, claro, apesar deste meu queixume, e com certeza a de muitos outros seus leitores, considero que a sua vontade deve prevalecer, independente daquilo que eu lhe escreva aqui.
    Desejo-lhe as melhores felicidades, pois, e adivinhando a sua exigência de qualidade, o que quer que faça, será seguramente algo com interesse
    Manel

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    1. Manel,

      Muito obrigado pelas palavras de apreço.

      Irei continuar, pese embora o esmorecimento. Igual àquilo que sempre fui e àquilo que as pessoas esperam de mim. Posso até avançar-lhe com o tema do próximo post: será a parte II do artigo histórico que iniciei há dias.

      É, a quebra dá-se, se bem que ainda não o senti no meu ritmo, aquele que me impus, ou seja, escrever quando considero necessário e enquanto me der prazer.

      O facebook é uma inevitabilidade na vida de um sujeito opinativo, e eu assim me considero - gosto de formular ideias sobre praticamente tudo, e de exteriorizá-las. O facebook permite-me sintetizar, estar sempre a par. O blogue, pelo menos quanto a mim, tem outra lógica: é um espaço de reflexão, de aprofundamento.

      Uma vez mais, agradeço-lhe imenso as palavras. Continuarei a fazer-lhe companhia, acredite. É por pessoas como o Manel que vejo que devo continuar!

      Permita-me que lhe deixe um abraço.

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  4. A Bloguesfera é uma Eurovisão :) Há anos que é mais fraca, são sempre os mesmo participantes e os ganhantes. Por vezes surgem lufadas de ar fresco e um qualquer Portugal ganha a Eurovisão passados 50 anos :)

    Só ainda vou em 7 anitos, tenho muito que aprender

    Grande abraço amigo

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    1. Cada um é como cada qual, mas confesso que sinto saudades daquela blogosfera mais sincera.

      um grande abraço!

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  5. Nestes oito anos em que mantenho o meu blogue (tive outro, durante uns dois anos) fui seguido e segui muita gente por pouquíssimo tempo. Via e lia blogues que denunciavam a sua própria efemeridade, não estavam ali para durar muito. Mas nenhum pai diz que vai acabar com o seu filho. As coisas simplesmente, acabam.... Há dias em que me apetece escrever um montão de coisas e outros em que não me apetece escrever nada, uns contrabalançam os outros...
    Se escrevia coisas no passado que não escrevo agora ou que (re)escrevo de forma diferente? É verdade. Se o faço por causa do público? Um pouco também.
    Acima de tudo penso: "- se fosse eu, gostaria de ir a tal sítio ler sobre aquele tema tratado daquela forma?" É quase como um espelho.

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    1. Compreendo. Eu nunca pensei no público. Gosto de ser lido, claro. Quem tiver um blogue e negá-lo, pois mente. Só que há quem goste de ser lido e quem faça por sê-lo. Quem o force. Sei que não é o teu caso. :) Vê-se que és espontâneo.

      Oh, quantos blogues vi desaparecer. Perdi-lhes a conta. E amadureci, claro. Deixei de falar da minha vida pessoal. Ponto. Não sinto essa necessidade.

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  6. Oi Mark!

    Perdoe o afastamento (mas tenho lido sempre). Fiquei assustado quando comecei a ler. Esmoreceu por quê? Eu amo o seu espaço, acompanho há muito tempo. É um prazer te ler, já disseram isso aqui. Acho que se quiser dar um tempo, dê, mas não termine com o blog.

    Não liga pros outros. Problema deles. Você sabe o que é o que vale e disse bem: escreve pra você mesmo (lembro disso até hoje). Pois continue! Quem gostar, como eu, vai estar aqui sempre!

    Abraços!

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    1. Ty, que saudades!! Penso frequentemente em ty, hehe. Permite-me o trocadilho. :'D

      Fases. Estou por aqui e por aqui ficarei, pelo menos enquanto me fizer sentido. Não se preocupe!

      Não ligo. Nunca fui consensual e sempre atraí a polémica e algum desdém. (risos) Os cães ladram e a caravana passa, diz a voz do povo, que é a de Deus.

      um grande, grande abraço!

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