13 de dezembro de 2017

Dois turistas em Lisboa.


   Na segunda-feira, o meu amigo chegou do estrangeiro. Fui esperá-lo ao aeroporto. O vôo veio atrasado. Adiaram-no uma hora, de início, e atrasou durante a viagem em mais uns quarenta anos, até que, por fim, lá o avião aterrou. O meu amigo, o M., reservou um quarto num hotel muito bem situado, na baixa, e nem se sentia cansado. A ânsia de passear era tal que fomos só deixar a sua bagagem ao quarto e descemos de imediato. Andei com ele pelo Chiado, pelo Rossio. Mostrei-lhe o que ali há para ver, já de noite, claro, mas o que agora até se torna positivo pela iluminação natalícia que decora a cidade e pelas feirinhas de Natal. Entrámos na livraria Sá da Costa, mítica, e subimos ao segundo andar. Há uma pequena exposição de azulejos antigos, a par de uma loja que os vende, bem como a painéis e a outros artefactos. Ainda fomos ao Príncipe Real. Levei-o ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, em passagem.

    Já ontem, terça, e em virtude de ter ido à casa do meu pai, só nos encontrámos de tarde. Passeou sozinho, mas de dia, pela baixa, tirando inúmeras fotos. Juntei-me a ele pelas 16h, levando-o de seguida ao Parque das Nações, uma zona oriental sobre a qual ele tinha alguma curiosidade. Por lá jantámos. Fizemos todo aquele caminho junto ao Tejo. No regresso à baixa, passámos pela Santini e deliciámo-nos com os melhores gelados da capital (manga com amendoim é indescritível de bom!).

    Hoje, levá-lo-ei a Alcântara e a Belém. Faremos esse percurso. Quero ver se ainda conseguimos ir ao Castelo de São Jorge. Tudo depende do seu interesse. Queluz, Mafra e Sintra também pairam no ar. Vamos ver.

    O M. veio especialmente para estar comigo, para conhecer Lisboa e, claro está, para participar no jantar de Natal de sábado. Tudo combinado. Está expectante, e eu também, confesso.

    Lisboa é tão encantadora que até eu, que aqui nasci, me sinto um turista. Há tanto para explorar, para ver, ainda que em repetição. Uma semana intensa, para desfrutar em boa - e saudável - companhia. O M. é muito bom rapaz. Estou de tal modo cansado de gente com mau carácter - e este ano foi profícuo em desencantar algumas dessas personagens - que os dias têm passado com uma leveza extraordinária que há muito não sentia. As pessoas boas tornam-nos melhores. As más só fazem despertar más energias, péssimos sentimentos, e trazem inquietação. E, por hoje, respiro fundo, tranquilamente. 

8 de dezembro de 2017

Jerusalém.


   Desde a constituição do Estado de Israel, em 1947, que a ONU estabeleceu, em resolução, que o mandato britânico para a Palestina daria lugar a dois estados: um judeu e um árabe, com Jerusalém, que hoje está no centro da discórdia, como de resto tem estado, que ficaria sob a alçada directamente da comunidade internacional, ou seja, não seria nem israelita, nem palestiniana. Jerusalém tem sido reivindicada, desde então, quer por palestinianos, quer por israelitas. Para Israel, Jerusalém é a sua capital. Por lá mantém os seus órgãos governamentais e políticos. Para a comunidade internacional, todavia, falta cumprir o disposto quanto à cidade e ao próprio estado da Palestina, que não vê a luz do dia.

    O reconhecimento dos EUA é simbólico, e constava no programa de Donald Trump. Há muito que Israel queria que as suas pretensões fossem reconhecidas. Os americanos têm sido sólidos aliados do Estado israelita. A influência da comunidade judaica nos EUA é por todos conhecida, e que não se duvide dos planos de Trump para a reeleição. As campanhas presidenciais envolvem gastos astronómicos, e têm de ser financiadas. Junte-se o clima de suspeição, justo, face ao mundo islâmico e encontraremos os motivos que levaram o presidente dos EUA a decidir-se por esse passo, seguramente ponderadíssimo, mas que vem aumentar a desconfiança numa zona do globo altamente instável. Há quem queira avançar para uma intifada. Os confrontos sucedem-se.

    A minha postura, na qual sou acompanhado também pelo Governo e pelo Presidente da República, é de profunda apreensão. Só alguém muito insensato, conhecendo-se todo o processo histórico e religioso no Médio Oriente, tomaria uma medida que já se sabia que despoletaria reacções hostis no mundo muçulmano. E eu sou um tradicional sionista, amigo de Israel. Não sou, entretanto, indiferente ao processo de paz necessário para o conflito israelo-árabe, que assim queda definitivamente enterrado. Jerusalém é a terceira cidade santa para os islâmicos, cidade santa para cristãos também, pela vida de Jesus que se cruza com a cidade, após o seu nascimento e na morte. Não é uma cidade apenas judaica. Deve, como consta desde o início pelas Nações Unidas, ser património de toda a humanidade. Reconhecê-la como capital de Israel é negar o seu carácter sagrado para as duas maiores religiões monoteístas do mundo, o Cristianismo e o Islamismo. Nego, inclusive, que se partilhe a cidade entre judeus e árabes. Enquanto cristão, Jerusalém é uma cidade que se reveste de especial simbolismo para a minha fé. Reitero o que defendi acima e que é o compromisso firmado pela ONU: Jerusalém seria uma cidade desmilitarizada, com um status político muito particular, à semelhança do que teria Bruxelas caso a Bélgica, um dia, se desfragmentasse, anseio de grupos rivais de língua francesa e flamenga, que integrariam as respectivas regiões na França e nos Países Baixos. Bruxelas seria administrada pela UE directamente, como uma cidade da organização internacional.

    E os EUA, que se crêem os polícias do mundo, devem parar de se investir nesse papel de juízes da humanidade. Há questões que lhes fogem à sensibilidade, e que homens como Trump não têm capacidade de discernir.

5 de dezembro de 2017

Dois em um.


   Há algum tempo (muito?) que não faço um dois em um. O dois em um, sucintamente, consiste na abordagem de dois temas numa única publicação.  Neste caso, têm ambos em comum o Natal.

   Começando pelo primeiro, a encomenda do estrangeiro: a minha NES não chegou. Após várias semanas de espera, e uma ida ao posto dos correios, soube, ainda sem qualquer aprofundamento, que foi entregue a outra pessoa por engano, provavelmente, estando de momento a fazer o caminho do remetente, ou seja, voltará para onde veio. Incompetência dos CTT, talvez. O endereço estava correctíssimo. Já segue uma reclamação via postal. Só espero que a carta não se extravie... O mais estranho é que da minha primeira ida aos correios, estranhando a demora, disseram-me que a encomenda estava em Portugal, só que retida no norte por uma "greve na distribuição". Souberam de alguma greve na distribuição dos CTT? Eu tão-pouco. Veremos o que se segue. Se voltar para quem ma enviou, nem tudo estará perdido. Falta saber se não andará por aí num qualquer lar português.
   Menos um presente de Natal. Terei outros. Na pior das hipóteses, que queria ao máximo evitar, terei de accionar meios judiciais.

   
   O jantar de Natal. Terminou, no dia 2, o prazo para aceitar integrantes. Somos um número razoável. O jantar terá um momento divertido no final, fruto de uma ideia que me ocorreu. Os participantes foram devidamente informados de tudo via e-mail.
   Estou expectante. Seguramente que será uma noite, ou melhor, um dia, para mais tarde recordar. Falta pouco mais de uma semana. Da minha parte, há uns detalhes a acertar, coisa pouca. Quero tudo devidamente tratado. É a semana de ultimar os preparativos. Gente metódica age assim. 
   Creio que consegui manter algum suspense. Há muita curiosidade em torno... Nada mais do que esperar para ver, para comer, claro, para rir e brincar.
   Contar-vos-ei todas as novidades. :)

1 de dezembro de 2017

Zé Pedro (1956 - 2017).


   Este será um dos obituários mais difíceis para um português fã do bom rock que por cá se produz. A notícia não causou estupefacção. Exactamente no mesmo dia, numa visita hospitalar à minha avó (que fracturou o fémur mas está bem), vieram à conversa os Xutos, acerca do estúdio imponente que têm, realidade tão diferente da do início da banda, no bairro dos Olivais, e até fui eu quem disse que, mais dia, menos dia, teríamos a informação do falecimento do Zé, que há muito lutava contra uma doença do foro hepático. Tristes coincidências. Se soubesse, não teria aberto a boca.

   Gosto dos Xutos. São uma banda paradigmática na música portuguesa desde o início dos anos 80. O álbum Circo de Feras, de 1987, e o que se lhe seguiu, de 1988, intitulado simplesmente 88, contêm as canções mais conhecidas, e popularizaram-nos. Gerações cresceram a ouvi-los. Os Xutos têm aquela capacidade de encher estádios, trinta anos depois, com velhos e novos à mistura. Serão, talvez, a banda mais intemporal e consensual. Quem tem coragem de não gostar dos Xutos?

   Eu, entretanto, pela minha idade, passei a adolescência com o Ai Se Ele Cai, do álbum Mundo ao Contrário (2004), mas Chuva Dissolvente, de Dizer Não de Vez (1992) faz parte daquele rock old school de que não prescindo.

   Não sei como ficarão os Xutos após esta partida. Perdeu-se o espírito do grupo - Zé Pedro era um membro carismático. Temos vários exemplos de bandas que se souberam reerguer. Os Queen, sem Freddie desde 1991, ainda actuam em parcerias com este ou aquele intérprete.
   Zé Pedro era mais do que o guitarrista da banda; não sendo o líder, sabia puxar pelo público como ninguém. Assumia sem pudores o seu passado ligado ao álcool e às drogas, e preocupava-se com essa mensagem pedagógica junto dos jovens.

   Nunca fui festivaleiro. Nunca vi os Xutos ao vivo. E só agora me dou conta dessa falha. Com o Zé Pedro, não mais será possível, infelizmente.
    E que ele possa dar os seus acordes lá na dimensão em que estiver.


* Uma pequeníssima nota de rodapé para dizer o seguinte: termina amanhã, dia 2, o prazo para que quem quiser participar no jantar de Natal, que estou a organizar, ainda o possa fazer. Cliquem neste linkou no gadget que encontrarão logo abaixo da minha foto de perfil, se se decidirem a vir. Despachem-se! :)

29 de novembro de 2017

Galiza.


   Descobri recentemente a Galiza. Em verdade, não a conheço. Aproximei-me gradualmente do povo galego através de incursões minhas em grupos temáticos que exaltam o nacionalismo galego. Espanha, que sabemos ser uma realidade forjada, tem muitos nacionalismos periféricos. O catalão será o mais conhecido, mas o galego, antigo, sobrevive. A Galiza é a comunidade autónoma espanhola na qual o idioma autóctone é mais falado do que o idioma do Estado, o castelhano. Os mais recentes estudos indicam que a situação está prestes a mudar. Vive-se, na Galiza, em diglossia. O idioma de prestígio empurra o idioma autóctone para uma condição de ostracismo conotado à ruralidade, por um lado, ou ao nacionalismo galego, pelo outro. Falar-se galego, na Galiza, cada vez mais é associado a uma destas realidades. Nos grandes centros urbanos, fala-se castelhano; os jovens, também eles, adoptam progressivamente o castelhano em detrimento do galego, num processo lento de linguicídio, prática comum em Espanha.

   A Galiza - tão bucólica - pela mansidão do seu povo e pelas suas paisagens de incontornável beleza, deveria representar bem mais para os portugueses. O nosso idioma nasceu na Gallaecia, que outrora o norte do país e a actual Galiza conformaram. Em jeito de peregrinação, como os islâmicos fazem a Meca, na Galiza descobrimos as nossas origens, até quanto ao idioma. Pelo norte do país, identicamente. E constatamos em como a fronteira política, imposta pelo Estado espanhol, é, a par de um erro grosseiro, uma farsa. Os falares de uma e de outra margem do rio Minho confundem-se. E é na Galiza profunda que descobrimos que o nosso idioma comum ainda não morreu, pese embora haja políticas agressivas por parte do Estado espanhol, com a cumplicidade dos órgãos galegos, como a Xunta de Galicia e a Real Academia Galega, esta última com competências no domínio da linguagem, tendo procedido a reformas que aproximaram o galego do castelhano, numa união anti-natural, quando o certo teria sido aproximá-lo do português, idioma com o qual divide séculos de história. Para mim e para outros reintegracionistas, o galego e o português são duas variantes de um mesmo idioma, e as diferenças que lhes encontramos prendem-se aos séculos de imposição e de influência nefasta do idioma castelhano.

    Nem tudo está perdido. Há uma nova geração orgulhosa do seu passado e das suas origens, consciente de que a Galiza deve olhar a sul. Porque a Galiza, que não tem a pujança económica e social de uma Catalunha, tem o que mais nenhuma região de Espanha tem: uma ligação fortíssima a outro Estado soberano, neste caso Portugal, que lhe pode seguir de guia e de exemplo. Há grupos galegos que defendem essa aproximação a Portugal, à língua portuguesa e à Lusofonia, através da CPLP. Em 2008, fundou-se a Academia Galega da Língua Portuguesa, que nos seus estatutos reconhece que o Português é o idioma da Galiza, e que foi recentemente aceite na CPLP como observador consultivo. Afinal, galego e português são dois nomes para um mesmo idioma. Divergências políticas levaram a nomenclaturas distintas. Como disse, a seu tempo, Carvalho Caeiro, «o galego, ou é galego-castelhano ou é galego-português».

27 de novembro de 2017

As fragilidades do decrépito regime.


    Estávamos em finais de Novembro de 1967. O ano havia sido chuvoso, mas nada fazia prever a hecatombe que se seguiria. Naquela madrugada, de 25 para 26, choveu, choveu muito. Lisboa e a região centro acordaram alagadas. Os mortos, mais que muitos. Sete centenas, na pior das tragédias desde o terramoto de 1755. O Estado Novo já se via em mãos com a Guerra Colonial e com o descontentamento generalizado. Oficialmente, morreram umas trezentas ou quatrocentas. Saber-se-ia, mais tarde, a dimensão real do que acontecera.

    O Portugal dos anos 60 não era aquele país bafejado pelo Maio de 68 e pelas conquistas sociais e tecnológicas da Europa civilizada. Era um país parado no tempo, isolado, com enormes desigualdades. Na Casa Portuguesa de Salazar, faltava o pão e o vinho sobre a mesa. Havia fome, miséria. Crianças desnutridas. Inúmeros analfabetos (cerca de 30 % da população). O crescimento económico, à custa das províncias, soçobrara com os esforços para manter uma guerra inútil. Naquela noite, não foi apenas a natureza a culpada da mortandade; foi-o, também, a insalubridade da habitações, a escassez de posses. Péssimas infraestruturas levaram a que muitos morressem dentro das suas casas. De Europa, muito pouco tinha Portugal.

    Não era fácil contornar o lápis azul do censor. O regime impunha expressamente uma política restrita de informação disponibilizada ao público. Claro que, em finais da década de 60, já havia uma imprensa pungente, sobretudo lá por fora, que não se coibiu de fotografar e de enviar para as redacções de todo o mundo o que se passava no pequeno rectângulo peninsular, como esta foto bastante expressiva.


24 de novembro de 2017

Um mês para o Natal.


    Celebraremos a Consoada exactamente de hoje a um mês. Os edifícios começam a vestir-se para a época. Lisboa já tem luzes dispostas pelas ruas e avenidas, ainda desligadas. É provável que as liguem hoje. Natal é isto: luz, magia, frio, músicas da quadra. Toda a envolvência cria este espírito natalício que, a mim, continua a encantar.

    Este ano, como sabem, tive a ideia de organizar um jantar, que está a ser um sucesso em termos de adesão. Somos, ao momento, onze pessoas, com uma provável décima segunda a juntar-se a um grupo bem disposto. O restaurante está escolhido. Um espaço agradável, requintado, tradicional, no coração de Lisboa. Mais: a reserva está feita, sendo que continuarei a aceitar integrantes até ao dia 2 do mês que vem (e fiz a salvaguarda no dia da reserva, a quem me recebeu). Mais uma semana, portanto, para que quem se sinta indeciso ainda possa decidir.

    Também fiz o roteiro, previamente comunicado aos participantes. Lancharemos (quem quiser) numa confeitaria de excelência, descendo de seguida a avenida para ver as luzes de Natal, terminando o percurso, claro está, no fantástico restaurante que nos irá receber. E também a madrugada nos espera...


    O jantar terá um sabor muito especial - vários sabores, atente-se, pelas iguarias que estarão à nossa disposição! - porque alguns vêm de longe, do norte do país, e do estrangeiro, até. Um evento internacional, não se circunscrevendo apenas às pessoas de cá, por assim dizer. Mais um motivo para que a noite seja especial e verdadeiramente inesquecível.

    Há gente com blogues e sem blogues. Pessoas cujo único intuito é o de conhecer, confraternizar, aproveitando o embalo do Natal, que estimula ao convívio. Haverá, portanto, um saudável equilíbrio, como se quer.
    Eu sou apenas o organizador. No dia 16, serei um entre todos, sem protagonismos, sem imposições, promovendo a interacção - e não segregando, como num por outro jantar em que participei recentemente. Quero apenas que quem participa se sinta bem. Não duvido, no entanto, de que será uma noite memorável.


19 de novembro de 2017

Super Nintendo Classic Mini.


   No ano passado, sensivelmente por este mês, a Nintendo lançou a famosa consola Nintendo, de 1985, em formato mini. Recordo-me de que a quis, e de ter publicado isso numa das minhas redes sociais. A NES Classic foi uma das consolas que preencheram a minha infância. Passava horas a jogar, sobretudo os jogos do Super Mario. Bem assim, também os meus pais jogavam. À data, já era antiga. Os jogos, entretanto, eram dos mais apelativos. Não sei o que se terá passado, mas esqueci-me de a comprar. O Natal aproximou-se, com ele outras compras, e nem nunca mais me lembrei de passar por uma FNAC ou por uma Worten e de a comprar.

   Há um mês e pouco, a Nintendo manteve o propósito de continuar a pôr no mercado as suas consolas mais famosas. E se no ano passado lançaram a NES, este ano decidiram-se pelas Super NES, de 1990. Foi quanto bastou. O interesse despertou em mim e andei um ou dois dias completamente obcecado com a consola. Percorri quase todas as lojas. Esgotada. Importa dizer que o meu objectivo era o de encontrar a NES, não a SNES, que, em verdade, nunca me interessou. Passei pelo OLX e pelo Custo Justo. Consolas em segunda mão, para ser sincero, são um risco. Algumas até poderão estar novas, porque muitos compram-nas já com o intuito de as vender a preços exorbitantes. A Nintendo lançou uma edição limitada, que esgotou em poucos dias. Com tantas solicitações, ainda foi abastecendo as lojas até meados de Março do presente ano. É surpreende verificar em como uma consola retro movimenta milhões de pessoas. Um misto de nostalgia, de jogar com 8 bits, de voltar aos velhinhos comandos. Impulsionávamos o corpo para fazer o Mario saltar mais longe e mais alto!...

   Estes novos formatos, mini, trazem acoplados de entre 20 a 30 jogos. Ligam-se facilmente ao televisor e recuperam toda a magia das consolas originais. De tanto comentar o assunto com a minha mãe, e do quão triste me sentia ao constatar que a NES Classic Mini estava completamente esgotada, fi-la, em itálico porque nunca o imaginei, andar por meia Lisboa à procura de uma. Não a encontrou, mas trouxe-me uma SNES, também já esgotada, que encontrou numa superfície comercial da periferia. Não era exactamente o que queria, mas estou-lhe agradecido.

    Um amigo meu, estrangeiro, que por acaso até vem ao jantar de Natal, soube da minha saga em busca da NES e resolveu comprar-me uma no seu país, tendo-a adquirido em segunda mão através de um site, já que por lá também estão esgotadas. A moça que lha vendeu garante que só a comprou para a revender. Ligou-a e desligou-a. A julgar pelas fotos que o meu amigo me enviou, está novíssima. Vem com a embalagem original, com o plástico envolvente e traz até o manual de instruções. Já segue desde o seu país até Portugal. Devo recebê-la amanhã, segunda-feira, ou nos dias seguintes, pelo correio.

    Da minha parte, já montei a SNES, e estou encantado. Como ficarei quando a NES chegar! A Nintendo sabe fazer negócio. O transformador de energia não vem incluído. Lá tive eu de ir a uma Worten comprar um, da Nintendo, que transformadores até tenho. Receava de que não fossem os indicados. Já fica para NES. Dá para ambas.
    Deixo-vos a foto da SNES, captada assim que a minha mãe chegou a casa com ela.


14 de novembro de 2017

No Panteão.


   Sendo sincero, não imaginava que o Panteão pudesse ser arrendado, e chegam ao cúmulo de especificar partes do monumento e respectivos preços. Quem sabe se o fundador da Web Summit tem razão e é um problema cultural? Problema ou não, um panteão não é o local mais apropriado para se organizar jantares. É um monumento fúnebre, que encerra os grandes vultos nacionais. Exige-se o mínimo de respeito. A foto das mesas corridas entre os cenotáfios provoca aqui qualquer reacçãozinha de desaprovação e desagrado. É de mau gosto. Se querem jantar num local imponente, arrendem uma sala de jantar de um palácio. E temos tantos e tão bonitos.

    Não está tanto em causa apurar os responsáveis. Sê-lo-ão o anterior executivo, que emitiu o despacho que permite estas jantaradas, e a actual Direcção-Geral do Património Cultural que, podendo recusá-los, permitiu-os. A DGPC está sob tutela do Ministério da Cultura, que não revogou ou alterou o despacho (o Governo é o órgão superior da Administração Pública, por imperativo constitucional, da qual a DGPC faz parte). E há registos de jantares em 2013, quando Costa era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, aparentemente sem conhecimento deste. Em suma, queremos saber o que o Estado - porque falamos de organismos estatais e de pessoas que ocupam cargos públicos - pensa sobre o respeito devido aos nossos mortos.

    Creio que o assunto tem mais do que dignidade para ser tratado aqui. Agora, todos se indignam e consideram ofensivo. E como sempre, em Portugal, apressamo-nos, mui diligentemente, a alterar esta lei, regulamento ou portaria depois das polémicas. Se não tivesse este mediatismo, estimulado pelas fotos e vídeos postos a circular, as jantaradas na Igreja de Santa Engrácia continuariam, entre os túmulos e os cenotáfios, profanando-se a memória dos nossos antepassados históricos.


E por falar em jantar, se ainda não decidiu, tem até ao dia 2 de Dezembro para o fazer. Pode participar no nosso jantar de Natal, seguindo esta hiperligação ou clicando no gadget do lado direito do ecrã. Terá lugar num espaço acolhedor, com bom ambiente e rodeado de gente viva e simpática!

8 de novembro de 2017

A Revolução de Outubro.


   Assinalou-se, ontem, o centésimo aniversário sobre a Revolução de Outubro, ou de Novembro, no nosso calendário gregoriano. A 7 de Novembro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder numa Rússia em plena convulsão política e social. Lenine encabeçou um movimento que se opunha ao governo provisório vindo da Revolução de Fevereiro (ou de Março, no calendário ocidental) de cariz burguês e local, da classe assalariada.

    A estratégia de Lenine foi devidamente conjecturada. Para o conseguir, apoiou-se nos sovietes, ou seja, nas associações de trabalhadores e soldados. Estes órgãos de poder, democráticos na sua génese, inspirariam, mais tarde, em 1922, o nome do país: União Soviética.
    Depressa foram esvaziados nas suas competências e atribuições, que passaram para o partido único, organizado de modo centralista, que pôs em prática um programa de eliminação da classe média, erguendo uma sociedade dita socialista. Seria um primeiro passo. Lenine estava plenamente convencido de que o sucesso da revolução socialista passaria também por exportar o modelo para os países do ocidente europeu.

    O atraso estruturante tem sido invocado como um dos motivos que levaram ao sucesso dos bolcheviques. O estilo de governação absolutista, a sociedade fortemente estratificada e a participação na I Guerra Mundial proporcionaram a ascensão de movimentos que, tomando em consideração a realidade do país, com 85 % de camponeses, defendiam a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Os erros, entretanto, foram mais do que muitos. Sob a insígnia de inimigos da revolução, e sob o comando de Lenine, houve perseguições em massa; nem as crianças Romanov escaparam à fúria bolchevique. Seguiu-se-lhe, à Revolução, uma guerra civil, e não a prosperidade que é apregoada.

    Munida de boas intenções, a Revolução de Outubro viria permitir a institucionalização do terror e das práticas persecutórias. A ditadura do proletariado mais não foi do que a ditadura do partido comunista, com execuções sumárias e com deportações em massa.

    As grandes fomes continuaram, o atraso também. Os vícios que se apontavam ao czar e à sua administração foram transferidos para outro modelo, também ele devidamente centralista. A passagem da Rússia da enxada e do arado para superpotência teve um preço dramático para milhões de pessoas. A vida do operariado e do campesinato não mudou. Logo em 1918, um ano após a revolução, queixavam-se da falta de trigo e das péssimas condições de trabalho.

    O pior, quanto a mim, viria com o apoio a revoluções semelhantes um pouco por todo o mundo que orbitava em torno da influência soviética, pelo reflexo nesses países e pelo que teria noutros, a contrario, com regimes autoritários de direita fortemente anticomunistas. A Revolução de 1917 teve consequências na história do século XX como poucas.

    A Rússia de Lenine não conheceu a bonança como apregoa a historiografia pouco isenta. Seria Estaline, posteriormente, com as suas políticas de planificação, que conduziria a Rússia ao estatuto que atingiu, sem que os problemas estruturais do país e das repúblicas que anexou fossem sanados. Em verdade, os últimos anos da União Soviética poriam a descoberto as fragilidades de uma realidade assente na repressão, na violação sistemática dos direitos humanos e na instrumentalização do ser humano ao serviço de um Estado que, contrariando os planos de Lenine, nunca viria a ser abolido. A sociedade comunista jamais se concretizou. Ergueram, sim, um Estado totalitário, dirigido por uma elite indiferente ao bem-estar da população. Escudando-se numa educação politizada e programática, incutiam os seus valores torpes nas novas gerações, mas quem viveu em sociedades socialistas conheceu o terror, a carência de bens e serviços e a falta de um valor inestimável: a liberdade, até a de conformar o destino aos ditames da consciência de cada um, num livre e saudável desenvolvimento da personalidade.

4 de novembro de 2017

Jantar de Natal - Lisboa/2017.


   Este ano, pela primeira vez, e como ando festivo, vou organizar um jantar de Natal para amigos. Há algumas considerações a fazer. E perguntas que se vos, legitimamente, colocarão. Em primeiro lugar, é oportuno fazer uma pequena referência ao lanche de Natal do ano passado, de minha autoria, que foi singelo, porém um êxito. Em rigor, já em 2016 pensei em propor um jantar de Natal. Todavia, como havia sido organizado recentemente um jantar, adaptei a ideia para algo mais comedido.

   Para amigos. Este jantar, e convém frisá-lo, não é um jantar de blogues. É, como o nome indica, um jantar de Natal, que anuncio no blogue porque gostaria que fosse abrangente e que reunisse pessoas também da blogosfera, desde que se proponham a participar. O intuito é tão-só o de desfrutar de um serão agradável. Terá lugar num espaço acolhedor, da capital, ainda a determinar. O dia, esse sim, está escolhido. Realizar-se-á a um sábado, 16 de Dezembro. A quem quiser participar, anote na agenda. A menos que haja um contratempo, será este o dia do jantar.




    Para esse dia, o evento é o jantar. Entretanto, haverá um lanche de Natal, no mesmo dia, pela parte da tarde, que em nada estará relacionado ao jantar, ou seja, quem quiser participar no jantar não terá de participar no lanche. O lanche, digamos assim, será um momento de confraternização que antecipa o jantar. Já escolhi o local do lanche e a hora, que serão devidamente divulgados a quem mostrar interesse. Haverá, seguindo-se ao lanche e ao jantar, um after-dinner num local agradável, a definir, de animação nocturna. Nada de devaneios, que é Natal. Um barzinho. Por maioria de razão, também só participará quem quiser. O evento, repito, será o jantar.

   Com a periodicidade que me parecer devida, irei publicando mais informações sobre o jantar. Se quiserem participar, enviem-me um e-mail para asaventurasdemark@hotmail.com, o e-mail do blogue. Exorto-vos a que adiram à ideia. Será um jantar simpático, elegante, com pessoas divertidas e discretas. É o primeiro anúncio que faço ao jantar e posso dizer que já somos umas 5 a 6 pessoas, comigo incluído. Virão, inclusive, de fora do país. Pelo menos uma. O esforço valerá a pena.

   Compreendo que o factor gastos-de-Natal pese em algumas pessoas na hora da decisão. Pois bem, o jantar comportará um preço simbólico a cada um. Não será nada excessivamente caro. Assim haja boa vontade em participar. Poderão confirmar a vossa presença até ao dia 2 de Dezembro. Terão tempo para reservar o dia 16 para o jantar.
   Venham. Podem trazer conhecidos, amigos. Não se sintam acanhados! Quaisquer dúvidas, disponham. Estarei disponível através do e-mail e na caixa de comentários para questões mais genéricas. :)

31 de outubro de 2017

Catalunya, once again.


   Longe de estar encerrado, o capítulo Catalunha continua a merecer a nossa atenção. Eu, como todos os jovens da minha geração, não tive lutas. Os nossos pais tiveram-nas: o 25 de Abril, a Guerra do Vietname, a independência de Timor... Sempre senti esse vácuo. A necessidade de um combate político. Recordo-me, em adolescente, de adoptar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo como uma causa, mas perdi os anos de combatividade acesa. O instituto haveria de ser aprovado pelo parlamento, em 2010.

   Vi no processo independentista catalão uma oportunidade de dar sentido a uma juventude fútil. Quis ver nascer um novo país. Pareceu-me que quem defendia acerrimamente a autodeterminação dos povos não poderia ficar indiferente aos anseios catalães. Mas uns houve que só viram a autodeterminação pela metade, talvez temendo um processo semelhante ao da Jugoslávia, quando a Carta das Nações Unidas, quando a prevê, não faz distinção entre povos subjugados. Como se os povos africanos, nomeadamente, merecessem mais a liberdade. Alguma incoerência, submissão a Espanha e manifesta má vontade com a causa catalã.

   A Europa,  pelo efeito-contágio expectável, apressou-se em não reconhecer a independência da Catalunha, declarada há poucos dias. O Governo espanhol fez circular uma minuta pelos países amigos, para que todos repudiassem o golpe dos revoltosos. A aplicação do artigo 155, a sujeição das instituições catalães ao governo central e a convocação de novas eleições, para finais de Dezembro, fazem crer que o pior já passou. Com o afastamento de Puigdemont, que provavelmente quererá evitar mais confrontos, Madrid tem o caminho livre para impor a sua ordem constitucional.


   Continuo a não acreditar na passividade dos catalães que querem poder decidir o seu futuro. Tão-pouco acredito nas manifestações pela união, fomentadas por Madrid com espanhóis de todo o país fazendo-se passar por catalães. Não será a Constituição espanhola a segurar a obstinação daquele povo, se essa for a sua vontade maioritária.

26 de outubro de 2017

(In)justiças.


   Determinado excerto de um acórdão da Relação do Porto circula pelas redes sociais. A Comunicação Social deu-lhe amplo destaque. Eu tive curiosidade e procurei encontrá-lo, ou, se tanto, ao conteúdo que suscitou tamanha indignação entre as pessoas. E pude comprovar, por mim, que as reacções de desagrado eram mais do que fundadas.

   Os magistrados decidem de acordo com a lei, com os factos e com o juízo que fazem dos factos. No caso deste desembargador, creio que lhe terá faltado sensibilidade. Transpôs os seus preconceitos para o acórdão. Desviou-se da lei e seguiu a religião e a crendice. O mais grave, quanto a mim, prende-se à sustentação e à confirmação dos sentimentos populares nos casos de adultério, que fazem pender sobre a mulher um juízo de censurabilidade muitíssimo superior, quando a Constituição, através do princípio da igualdade, consignado no artigo 13º, afasta por completo toda e qualquer discriminação de género. A mulher e o homem são iguais perante a lei. É, efectivamente, o cultuar da misoginia.

    Os tribunais são independentes. Administram a justiça em nome do povo. Ora, a decisão jurisdicional é, ela mesma, desfasada da realidade do país. Compreender-se-ia se vivêssemos num país em que ainda se observasse a mulher daquele modo. Os tribunais não podem apartar-se por completo do contexto social em que se inserem. Não é o caso. Ao ter tomado conhecimento da fundamentação do acórdão, as pessoas revoltaram-se. E naturalmente. Ninguém de bom senso fica indiferente àquilo que ali está.

    Portugal está vinculado, mas não apenas na ordem interna, à observância dos princípios constitucionais. Há convenções e tratados, dos quais somos signatários, que também eles não nos permitem fazer tais distinções intoleráveis de género. Este magistrado em concreto não deve, jamais, de futuro, julgar casos análogos. Será o Conselho Superior de Magistratura o órgão competente para se pronunciar e agir em consonância. Simultaneamente, e embora compreenda o alarme social, não devemos, deste caso, tirar ilações para todo o país. Temos magistrados e magistradas competentes, homens e mulheres do conhecimento, que em caso algum decidiriam assim. Recorrendo a um adágio popular conhecido, « em todos os pomares há maçãs podres ».

      Para quem não conhece o acórdão, pode lê-lo aqui. A polémica está na pág. 19.

21 de outubro de 2017

Klaus Nomi.


    Este post será ligeiramente contracorrente. Há muito que não me dedico a intérpretes ou canções; melhor dito, há muito que nenhum, ou nenhuma, me merece um destaque especial. Por estes meses, entre as minhas pesquisas, redescobri Klaus Nomi. Já lhe tinha passado os olhos há anos, sem me deter o suficiente. Klaus Nomi foi um artista ímpar. Hoje mesmo, se vivo fosse, estou em crer que seria incompreendido.

    Klaus era alemão. A carreira teve tanto de curta quanto de meteórica. No final dos anos 70, seria catapultada quando se mudou para Nova Iorque. Enquanto esteve na sua terra-natal, actuava na Ópera Alemã. Já nos EUA, impressionou a todos pelas suas vestes histriónicas, pelo penteado exuberante e pelas performances inusitadas e teatrais. Klaus, que era contra-tenor, soube conjugar o canto clássico e a pop-rock, uma junção que, na sua voz, soava sublimemente. Nos finais da década de 70, em torno de 1979, o não menos carismático David Bowie assistiu a uma das suas apresentações e convidou-o para actuar ao seu lado no programa televisivo Saturday Night Live. A comparência no programa tornou-o conhecido para o grande público norte-americano, permitindo-lhe gravar um álbum sob o selo da RCA, de título homónimo, encetando uma breve tour pela Europa e pela América, além de ter colaborado em projectos paralelos com outros nomes do meio.

    Em 1983, a sua saúde começou a acusar sinais de debilidade. Enfraqueceu, emagreceu, surgindo-lhe umas manchas estranhíssimas na pele, sobretudo no pescoço, que prontamente disfarçou ao usar uma gorjeira, adereço muito comum nas cortes europeias pelos séculos XVI e XVII. Acabou por falecer em consequência de complicações causadas pelo então desconhecido HIV.

    Antevendo a morte iminente, Klaus interpretou, em meados de 1983 (haveria de morrer em Agosto do mesmo ano, com trinta e nove anos), a ária Cold Genius, do Rei Artur, por Henry Purcell, compositor. Tratou-se de um momento emocionante e pejado de simbolismo. Um homem que, a morrer, canta a morte.

     Eis o depoimento, duro, de um dos poucos amigos que não o abandonaram durante as suas últimas semanas, Joey Arias: « Os médicos obrigaram-me a usar um traje de plástico quando o visitei. Eu estava proibido de lhe tocar. Depois de algumas semanas, pareceu ter melhorado. Tinha força para andar. Então, saiu do hospital e foi para casa. O seu gerente fê-lo assinar todos os papéis, como se a sua vida valesse quinhentos dólares. Ele desenvolveu kaposis (um tipo de lesão associada ao sarcoma de Kaposi, que é uma forma estranha de cancro de pele relacionado à SIDA) e começou a tomar interferon. Isso afectou-o terrivelmente. Tinha marcas em todo o corpo e os seus olhos tinham fissuras roxas. Era como se alguém o estivesse a destruir. Só costumava brincar com isso: "Agora chama-me o Nomi de pontos". Então, ele realmente enfraqueceu e nós levámo-lo para o hospital. Não podia comer comida por dias porque tinha cancro de estômago. O herpes brotou-lhe por todo o corpo. Ele tornou-se um monstro. Doía-me muito vê-lo assim. Falei com ele na noite de 5 de agosto, e ele disse-me: "Joey, e agora o que é que eu faço? Eles não me querem mais no hospital. Já me desligaram de todas as máquinas. Tenho de parar com tudo isto porque não estou a melhorar". Tive um sonho de que Klaus ficaria melhor e cantava novamente, só que desta vez um pouco deformado, de modo em que ele tinha de estar atrás de um ecrã ou algo assim. Eu disse: "Agora serás o fantasma da ópera. Vamos fazer apresentações juntas", e ele respondeu: "Sim, possivelmente". Mas Klaus morreu naquela noite enquanto dormia. »

       Deixo-vos o vídeo e algumas fotos deste artista tão ignorado.






18 de outubro de 2017

A nódoa negra.


   Debrucei-me, em Junho, sobre Pedrógão. Aquela mortandade apanhou-me de surpresa. Não julguei ser possível ver morrer tanta gente em dias, uns nas suas casas, outros encurralados pelo fogo enquanto dele tentavam fugir. Logo aí, dei-me conta do rotundo falhanço do Estado português e das instituições, um descompromisso inadmissível com a segurança dos cidadãos e com a sustentabilidade e o ordenamento das nossas florestas. Quatro meses depois, repetiu-se a tragédia, e devo dizer que o que mais me custou foi ver a leveza com que o Governo encarou o fim de semana mais assombroso da história recente. Vi um Primeiro-Ministro calmo, quase que relativizando o sucedido, e uma Ministra da Administração Interna que fazia finca-pé, insistindo em manter-se no cargo, quando tutelava a pasta que lhe teria permitido adoptar todas as medidas necessárias de prevenção para evitar os fogos e os seus efeitos devastadores - num país em que os incêndios são recorrentes.

   A reacção da oposição foi a única possível. Não é só a MAI a responsável. Os ministros são politicamente responsáveis perante o Primeiro-Ministro, que encabeça o executivo. Em última instância, a responsabilidade não pode ser negada ao Chefe do Governo. No seguimento dessa dupla responsabilização, Ministra / Primeiro-Ministro, naturalmente toda a estrutura governativa é posta em causa, o que justifica, da parte do CDS-PP, uma moção de censura, que, ao que consta, será votada favoravelmente pelo PSD.

   O CDS tem sido coerente nas suas decisões. Assumiu-se como verdadeiro partido da oposição, a meio da crise de credibilidade do PSD, e Assunção Cristas, já em Junho, com Pedrógão, havia sido implacável quando criticou a actuação do Governo e a aparente desresponsabilização face a uma tragédia sem precedentes. A moção de censura enquadra-se bem como instrumento de ultima ratio (artigo 194º, número 1 da CRP). Aprovada com maioria absoluta, implica a queda do executivo (artigo 195º, número 1, alínea f)). É bem pouco provável que tal aconteça, porque os partidos que já anunciaram que a votarão favoravelmente, CDS-PP, o proponente, e PSD, não reúnem a maioria exigida pela Constituição, ou seja os 116 deputados. Quando a queda do executivo está afastada, o que parece ser o caso, há uma interpretação a fazer da moção de censura: para o CDS-PP, o Governo não tem condições para se manter em função - daí que não o possa voltar a fazer (propor outra moção) até ao término da legislatura. Sendo a Assembleia da República soberana, a rejeição da moção dará novo fôlego ao Governo, uma vez que o parlamento reitera, assim, a sua confiança no executivo (não confundir com a moção de confiança, cuja iniciativa parte do Governo). Para que a moção acarrete a demissão do Governo, alguns deputados da extrema-esquerda teriam de se aliar à direita, o que não é razoável, não obstante os acordos entre o PS, PCP-PEV e BE nada preverem quanto a cenários semelhantes. Admitindo que alguns deputados votassem a favor da moção e que o Governo caísse, ou mesmo que António Costa apresentasse a sua demissão ao Presidente da República, as novas eleições poderiam reforçar a representatividade parlamentar do PS.


     O discurso do Presidente da República foi duro, e deixou recados ao Governo. A remodelação governamental, cirúrgica ou não, foi dita entrelinhas. Veio o merecido pedido de desculpas aos portugueses, e o Presidente, que não tem quaisquer competências executivas, percebeu que essas palavras eram merecidas àquelas populações, num gesto de humildade que o Governo não soube ter. Também, como figura máxima da hierarquia do Estado, vem o reconhecimento de que este falhou na salvaguarda da segurança e da vida dos cidadãos. Pontos para Marcelo, fracassos para Costa. O pedido de demissão da MAI, junto do Primeiro-Ministro, veio ao encontro dos apelos do Presidente. Constança Urbano de Sousa estava desacreditada perante a opinião pública, profundamente fragilizada desde Pedrógão. Creio que tomou a decisão certa, até para preservar um pouco da sua imagem pública, desgastada após tantos desaires políticos.

     Deve, nesta matéria, haver um consenso político entre os partidos com responsabilidades governativas. Ano após ano, deparamo-nos com o flagelo dos incêndios; neste ano, em particular, com a perda de mais de cem vidas humanas, um número demasiado elevado para ser esquecido, deliberadamente ou não.

16 de outubro de 2017

iPhone.


   Pensei em se deveria ou não escrever sobre uma compra. Fazia-o com frequência nos anos iniciais do blogue. Entretanto, cresci, progressivamente comecei a falar menos e menos de mim, da minha vida pessoal, e achei que falar em compras seria demasiado fútil. A futilidade pode ser benéfica. Ajuda-nos a descomprimir.

   Há muito tempo que queria fazer a transição para a Apple. Gosto da marca, gosto da forma como se publicita. Os produtos são bons. O pós-venda, dito por todos, é excelente. Apenas o preço desmotiva, e muito. No meu caso, queria começar por, gradualmente, adquirir o telefone, o tablet, o portátil e, sendo caso disso, o fixo. Ontem, finalmente, dei o primeiro passo. Adquiri, no El Corte Inglés, o último iPhone 8 Plus. Sim, foi caro. Muito caro. Nunca tinha dado tanto por um equipamento. O meu Surface, que gosto da linha da Microsoft, ainda assim, foi mais barato.

   Estive indeciso entre o 7 Plus e o 8 Plus - o modelo mais recente. Pelo preço a que estava disposto a pagar, tinha o 7 Plus com 128 GB e o 8 Plus com 64 GB. O 7 saiu há um ano, é um óptimo telefone, e com 128 GB permite armazenar muito. O 8, aquele pelo qual me decidi, e embora sendo mais caro - pouco mais - tem menos memória. O que ponderou na minha decisão foi o facto de não querer gastar tanto dinheiro num equipamento que saiu há um ano, havendo um mais recente. E conseguirei gerir perfeitamente os 64 GB, que, a bem ver, é espaço mais do que suficiente. Do Plus não prescindiria. Queria um aparelho razoavelmente grande.

    Para completar o pack, comprei uma capa da Apple para o telemóvel. Caríssima. Para terem uma ideia, porque é deselegantíssimo falar em números, paguei três vezes mais o preço de uma capa normal. É a capa oficial, digamos assim, em couro preto. E o telemóvel, claro, adquiri-o na tonalidade clássica. Também já tratei do Nano SIM.

     Foi uma compra cara. A primeira de outras, que o próximo passo será um iPad. Deixo-vos a foto.


11 de outubro de 2017

Al Berto.


    Dirigi-me à sala de cinema com grande expectativa. Al Berto é uma figura relativamente desconhecida e obscura fora dos circuitos culturais. Um poeta maldito, como todos os que afrontaram as convenções, numa época particularmente conturbada da história portuguesa contemporânea.
    Al Berto, e aqui fazendo um paralelismo com António Variações, na música, autoexilou-se nos anos da ditadura, tendo residido em Bruxelas, embebendo no seu espírito novas correntes. Regressado a Sines, deparou-se com uma terriola parada no período pós-revolucionário, com uma sociedade fortemente patriarcal, onde tudo o que transpirava a modernidade era sumariamente rejeitado. E Al Berto ousou nos costumes, junto ao seu pouco convencional grupo de amigos, suscitando todo o tipo de reacções de desaprovação, desde o insulto barato ao mais vil vandalismo.

     O filme é quase iconoclasta, se bem que não senti um esforço sobre-humano, da parte de Vicente Alves do Ó, para retratar um Al Berto diferente e amoral. Era-o. Havia, nele, um misto de modernidade e de apego às raízes, uma vontade de que tudo funcionasse no processo custoso de reconciliação com o passado. Um passado associado às tradições locais, ao palácio devoluto, à actividade piscatória da terra, àquelas gentes que desprezava e que, simultaneamente, o seduziam.

     O que para mim também releva, e digo-o despretensiosamente e sem pudor, é o facto de o filme se inserir em cinema português sem aparentar ser cinema português. Há um jeito novo de realizar, de fazer discorrer a narrativa, sem aborrecer o espectador. Convém que assim seja, porque atrai o público que desconfia das fórmulas antigas de se fazer cinema. Al Berto é, nesse sentido, um filme novo sobre uma realidade de há quarenta anos, e bem conseguido. Houve uma preocupação claríssima em não descurar os pormenores. O maço de cigarros de Al Berto e de João Maria era um SG dos setenta. Detalhes aparentemente ínfimos mas que podem elevar uma obra ao prestígio ou arrasá-la na crítica.

     Pelo meio, temos uma visão política bem demarcada. Sines, reduto comunista, na era das expropriações - que visaram também a burguesia local, entre a qual cresceu Al Berto. Um desejo de mudança, que tardava em chegar. Depressa Al Berto percebeu que a pequena localidade alentejana não estava preparada para os planos que traçara: a livraria - um sonho - a relação com um cantor libertino - que o amava - os saraus e as festas hippies. Sines não sonhou consigo, como fez chegar a uma das suas amigas.

     Gostei realmente muito, e aconselho. A interpretação de Ricardo Teixeira, o actor principal, seguramente ajudará a recuperar a memória e o legado de Al Berto junto do grande público.

9 de outubro de 2017

Da direita.


   Pedro Passos Coelho anunciou a sua não-recandidatura à liderança do PSD. Bem como referi no artigo atinente às autárquicas, não há muitas individualidades no seio do partido dispostas a tirá-lo do lamaçal em que o ainda presidente o jogou. Ouvimos falar de Rui Rio, de Luís Montenegro, de Paulo Rangel e, curioso, de Pedro Santana Lopes.

   O PSD é um dos partidos do centrão. Numa democracia como a portuguesa, exige-se que haja uma alternativa credível ao poder instalado. É saudável que assim seja. O PSD pós-2015 insistiu, muito por culpa do seu líder, num discurso derrotista que não encontrou correspondência com os factos, com a realidade do país. A natural consequência foi a do descrédito do partido, e da sua orientação manifestamente neoliberal, junto do eleitorado. A pesada derrota de 1 de Outubro e o anúncio da não-recandidatura de Pedro Passos Coelho darão um outro fôlego ao PSD, no momento em que Rui Rio se prepara para comunicar aos sociais-democratas e ao país as suas intenções de se apresentar como candidato à presidência.

    Rui Rio é um homem moderado, interessado em encontrar consensos, adepto dos pactos de regime. O bloco central, que assusta o Presidente da República e determinada ala no PSD. Eu, entretanto, defendo que quer o PS, quer o PSD devem assumir-se como diferentes, muito embora, em matérias sensíveis e de superior interesse nacional, saibam convergir quando é necessário. O PSD afastou-se sobremodo do seu ideário fundador, perdeu votos entre os jovens, entre os moderados. Extremou posições. Importa recolocá-lo ao centro sem medos, porque é ao centro que se ganham as eleições.

     Santana Lopes, com a decisão conjunta, mas não combinada, suponho, de Paulo Rangel e de Luís Montenegro de afastarem qualquer intenção de se candidatar, surge como segundo nome. Santana Lopes dispensa apresentações. O currículo político e pessoal fala por si. O período, curto, felizmente, em que governou não deixa saudades. Em sua defesa, devo dizer que não governou em circunstâncias favoráveis. Grosso modo, como Passos Coelho.
    Para liderar um partido com aspirações de poder, convém ter certa envergadura, credibilidade pública, inspirar confiança nas pessoas. Pedro Santana Lopes não reúne estas condições. Acredito que aceite o desafio; é um homem que não teme comprometer-se - verdade seja dita, tem pouco a perder.

     Há muito que se fala em Rui Rio. O ex-autarca nunca quis avançar, talvez por sentido de estratégia, talvez por não estar preparado para embates nacionais. Liderar o PSD é distinto de liderar a Câmara Municipal do Porto. É bem provável que o faça agora, dado que nenhum adversário de peso se lhe pode opor. Fala-se em cerca de sessenta por cento do partido favorável à sua candidatura.


     A direita portuguesa deve reestruturar-se. O CDS, pela deriva a que assistimos no PSD, tem sabido capitalizar os votos e o apoio daquela direita que não cede ao centro. Passos Coelho deixa, a Rui Rio, uma herança bafienta que cabe ao próximo líder repudiar. Recuperar um pouco do PPD, reconquistar aqueles que acreditam na afirmação do sector privado face ao público, na diminuição do Estado na vida dos cidadãos, particularmente do Estado português, pouco amigo, pesado. Incentivar ao investimento. Mais importante ainda, ter outro discurso. Não apresentar ao eleitorado um caminho obstinado e surdo de contenção. Não vai ser fácil. Compreendo as reticências de Rio.

6 de outubro de 2017

Outono.


   Eis que é chegada a estação de que mais gosto, o Outono. Em adulto, pois em criança adorava o Verão. Associava-o às férias grandes, à praia, ao descanso. Não há, todavia, melhor do que o Outono. O Outono, ao contrário da Primavera, diminui-nos os dias, que se tornam progressivamente mais frios, em contagem decrescente para o solstício de Inverno e para o Natal. É, portanto, no Outono que desço as avenidas para ver a iluminação; é no Outono que como as castanhas assadas; é no Outono que organizo as ideias para a minha lista de presentes, que me divirto com as decorações de Halloween - muito embora não ligue nada a essa festividade importada; prefiro as nossas tradições nortenhas. Também é no Outono que visito os meus mortos, que os tenho espalhados por três cemitérios da capital.

   Nos últimos anos, infortúnio meu, pelo aquecimento global ou pelo raio que nos valha, o Verão tem-se prolongado. Chegamos a Outubro com temperaturas de Verão, exageradamente elevadas, roubando-nos, pelo menos quanto a mim, o encanto da época, a ponto de nem se dar a queda atempada da folha, tão conotada ao Outono; talvez, diria eu, a primeira imagem que nos ocorre quando nos lembramos destes meses.

   Neste Outono, entretanto, pelo evento que irei realizar, terei, a par da faculdade - que ainda lhe devo algumas palavras - o tempo preenchido. Mais à frente, no início do mês que vem, adiantarei mais detalhes. Posso apenas desvendar que, tratando-se o Natal da minha quadra predilecta, é um período que convida à confraternização. Fico-me por aqui. Está em fase de maturação.

    Por ora, aguardo pelo fim da época quente. Este período de transição Verão-Outono / ócio-aulas está a ser particularmente turbulento e conturbado. Aguardo a acalmia.

2 de outubro de 2017

Autárquicas '17.


   Sem grandes surpresas ao centro, as eleições autárquicas deste domingo vieram confirmar as nossas suspeitas. O Partido Socialista, pela retoma económica do país, foi o grande vencedor da noite eleitoral, ao ter atingindo um resultado histórico em autárquicas, muito embora, em Lisboa, tenha perdido a maioria, o que obrigará a consensos. Nos antípodas, o PSD teve o pior  em quarenta e três anos de democracia. Um corte definitivo com o passado, a ruptura com Pedro Passos Coelho e com as suas políticas, que em verdade não deixaram saudades nos portugueses. O presidente do PSD prejudicou mesmo a marca "PSD" e alguns bons autarcas, que acredito que os haja, no seio do seu partido. É um homem teimoso, que insiste no suicídio político. Foi penoso ouvi-lo ontem, no seguimento do desastre em Lisboa, no Porto e em vários municípios do norte do país. Nos dois principais centros urbanos, posicionou-se como terceira força. A mensagem política é clara. Afastada que está a demissão, é provável que aguarde pelas primárias de Janeiro. Recandidatar-se à liderança é que não adivinho como possível, a menos que tenha perdido toda a dignidade e o que lhe resta, se restar, de bom senso.

    A estupefacção, quanto a mim, veio com os resultados da extrema-esquerda. O BE elegeu um vereador em Lisboa e aumentou a representatividade pelo país, mas a CDU perdeu bastiões comunistas no Alentejo e no distrito de Setúbal, como Almada e o Barreiro desde 1976. As forças de suporte ao Governo, pelo bom desempenho deste, saem prejudicadas. Para favorecer o PS, o eleitorado retirou peso político à CDU. Imagino a inquietação entre os comunistas, e estou de certo modo curioso para ver quais serão as suas relações com o PS a partir de agora. A extrema-esquerda portuguesa é, por natureza, contrapoder. A "geringonça", como lhe chamam, surgiu da necessidade de quebrar com um ciclo de austeridade. Com a economia estabilizada e com uma derrota eleitoral no saco, não vislumbro um PCP submisso, em consonância como até então, embora Jerónimo de Sousa evite traçar o paralelismo.

   Quanto ao CDS, conseguiu mais um município e obteve uma votação muito favorável em Lisboa. Eu, todavia, refrearia estes ânimos na capital, salvaguardando o conjunto. Quem ouvir Assunção Cristas, julgará que está perante a nova presidente da câmara. Em abono da verdade, fez uma boa campanha em Lisboa, pelo que merece os louros. Pôs o PSD para trás e reconfirmou a liderança no partido. Vejo-a como uma potencial líder da direita, que está órfã de uma referência. O partido soube fazer a transição entre um Paulo Portas desgastado por quatro terríveis anos de poder e uma centrista carismática.

    No Porto, o independente Rui Moreira, com maioria absoluta, renovou o mandato. Será em Isaltino Morais, passando pelos independentes, que temos a prova inequívoca de que a fama bate a idoneidade. Eleito com maioria absoluta à frente de Oeiras.

    As autárquicas têm uma leitura política nacional, como bem se viu.  Não raras vezes servem de cartão amarelo à governação, sendo que estas, de 2017, ficarão para a história como um castigo ao maior partido da oposição pelas suas políticas de 2011 a 2015, pela retórica gasta e crispada de Pedro Passos Coelho e pela desorientação e falta de visão política do PSD.  Há muito que aludo a uma urgente mudança. Entretanto, ninguém dá sinais de querer assumir as rédeas do partido. Todos se divorciaram desse passado negro intimamente ligado à dita troika. O grande erro, ainda voltando a Pedro Passos Coelho, foi o de supor que ou o país naufragaria ou os acordos com a extrema-esquerda não iriam tão longe. Falhou em ambas as análises.

     E em Loures, cidade limítrofe tão falada ultimamente, e para terminar, André Ventura, o populista candidato, não foi além de um terceiro lugar. A retórica extremista, em Portugal, decididamente não tem espaço. Foi uma má aposta, perdida. Os costumes do país não se compatibilizam com discursos reaccionários, sem prejuízo, devo dizer, de lhe reconhecer alguma razão no que disse ao longo da campanha - e foi também o entendimento do eleitorado, que deu, em Loures, um vereador ao PSD.

28 de setembro de 2017

Angola (parte II).


   O título vem a propósito de um artigo, com pouco tempo, sobre o afastamento voluntário de José Eduardo dos Santos. Parte dois, também, pela nova conjuntura que se vive em Angola, com o recém-empossado Presidente, João Lourenço. Quanto a nós, mera continuação, o que justifica, por fim, a parte dois, porque não vislumbro qualquer mudança significativa nas relações bilaterais entre as duas repúblicas.

   A tomada de posse de João Lourenço foi uma paródia no que toca a Portugal. Marcelo foi vaiado, omitiu-se Portugal enquanto parceiro angolano na presença do Chefe de Estado português, ou seja, todos os condimentos para uma cerimónia de investidura surreal desde o ponto de vista da cordialidade e do respeito institucional. O comportamento de Marcelo Rebelo de Sousa roçou a infantilidade. Os banhos em Luanda, a negação do que é evidente ao mais desatento: a classe política angolana não só não nos estima como faz questão de pouco ou nada o disfarçar. Eu diria mais: sente prazer em escarnecer-nos. Por mais que queiram transformar assobios em aplausos, a persistência em convencer-nos do contrário denuncia-os.

   O nosso grave problema, admitido recentemente por um dirigente da UNITA, é vergarmo-nos. A Angola, particularmente, sucedendo ainda com o Brasil. Ou com Espanha. Continuamos os mansos e estupidamente modestos de sempre, desde os tempos do Estado Novo. A democracia não nos fez brotar respeito por quem somos, orgulho na nossa história. O politicamente correcto - a desgraça do politicamente correcto - torna-nos numa piada no palco internacional. Verdadeiros bobos da corte.

   Marcelo, Marcelo Rebelo de Sousa, deve aprender a ser menos descontraído. A descontracção em demasia pode ridicularizar a sua imagem pública. Há momentos em que um Chefe de Estado deve saber assumir uma postura de maior rigidez e circunspecção. Assistimos, e eu considero particularmente danoso, ao achincalhamento de Portugal e das suas mais altas figuras. Portugal é a antiga potência colonizadora de Angola. O respeito mútuo, até em honra dos laços que partilhamos, deveria ser incondicional, estar acima de processos judiciais, designadamente, e aqui reside o epicentro deste mal-estar entre Portugal e Angola: as investigações portuguesas que visam individualidades do MPLA. Angola interpreta como ingerência o que eu, e todos de bom senso, interpreto como a independência do poder judicial e a actuação livre, e responsável, dos órgãos judiciais.

    O discurso de tomada de posse, regra geral, desvenda as linhas programáticas do titular do cargo em questão. Mencionar Portugal entre suspeitas, e de modo implícito, encerra uma mensagem subliminar clara: não contamos convosco. Só uma democratização empenhada em Angola poderia reverter este progressivo afastamento entre os dois países. E não sei se será com João Lourenço que Angola vai encarrilhar.

24 de setembro de 2017

100 Men / Queer Lisboa 21.


   Pela primeira vez, neste ano, fui ao Queer Lisboa, aceitando o convite de um amigo. Iríamos assistir a um documentário que, mal eu suspeitava, seria criativo, nada enfadonho, pouco se detendo naqueles temas-base de qualquer longa, curta ou documentário que versa sobre a dita comunidade. Bom, houve clichés, sim, mas não podemos desvirtuar o objecto que pretendemos explorar. Falar da comunidade homossexual é, necessariamente, falar da promiscuidade, da epidemia da HIV, da fragilidade das relações amorosas, do preconceito social... O que há neste documentário que não há noutros é a sequência pouco morosa. O documentário, melhor, os homens sucedem-se com as suas histórias pessoais, tragédias, características. Há uma linha cronológica e uma contagem decrescente que não permitiram ao director demorar-se com um determinado tema. E houve muitos. Quebrou-se com aquela tendência quase irresistível para retratar os oitenta como a década da morte. Claro que, a dado momento, houve quem contasse que passava os dias vestido de preto porque os enterros se sucediam. E ficou-se por aí.

   Cada homem que o director foi conhecendo acrescentou-lhe algo de novo. Cada um fê-lo vivenciar situações, cometer excessos. Aí surgiram os dilemas, entre os quais o da monogamia. O director estabelece uma relação com um homem, que sucumbe a engates, aos anos, não sem antes se ter transformado numa relação aberta. Retomariam posteriormente.
   Somos confrontados com as nossas idealizações: se calhar, diz-nos Paul Oremland, o príncipe encantado não existe, ainda que o queiramos encontrar. Existem homens de carne e osso, frustrados, psicologicamente desequilibrados, fetichistas, com mazelas físicas e morais. Um por um, todos o marcaram. O exercício inusitado de os descobrir levou-o a fazer uma retrospectiva curiosa. E é quase tudo desfiado com leveza - a contagem ajuda - como se tivesse sido uma juventude vivida no fio da navalha, mas muito divertida.

    À medida em que o documentário avança, percebemos que as inquietações mudam. Já não é a epidemia, que o cocktail medicamentoso resgatou a muitos da morte, senão o progressivo esvaziamento de uma comunidade e de um activismo que vêm perdendo a razão de ser. Quanto à primeira, as apps de encontros ditaram uma nova forma de os homens se conhecerem. Fará ou não sentido haver bares dirigidos especificamente a homossexuais? No activismo, as causas vão cedendo diante da aceitação social. Perdeu-se o espírito de grupo, a combatividade. Saíram dos guetos e da clandestinidade para as avenidas das grandes metrópoles. Sobeja o show off.

    Eu gostei, e aconselho a que o vejam.

21 de setembro de 2017

Catalunya lliure.


   De tempos em tempos, ouvimos falar da Catalunha e do seu confronto com o governo central espanhol. Nem os ditos referendos comportam qualquer novidade. Em 2014, patrocinado pela Generalitat, foi realizado um, em moldes que o disfarçaram, tendo, na altura, suscitado reacções adversas em Madrid. O resultado foi amplamente favorável à independência, com uma taxa de aprovação superior aos 80 %. Desde então, de forma mais ou menos velada, fala-se na hipotética independência daquela comunidade autónoma espanhola, que teria a vida dificultada por Espanha. A adesão à União Europeia, designadamente, jamais se concretizaria. Vive-se, entre Barcelona e Madrid, uma paz podre.

    Para entendermos a conturbada situação do país vizinho, não podemos ignorar o contexto histórico. Sem querer afastar-me do essencial, a Catalunha surgiu enquanto Condado de Barcelona da Marca Hispânica do Império Carolíngio, mais tarde unido à Coroa de Aragão, uma das que compunham a península, na sequência do enlance entre Petronila de Aragão e Raimundo Berengário IV de Barcelona. Séculos mais tarde, transformar-se-ia num principado. Espanha, o moderno Reino de Espanha que conhecemos, é de formulação da Casa de Bourbon. Surgiu com o centralismo régio do século XVIII, sobretudo a partir de Felipe de Anjou, Felipe V de Bourbon, o primeiro Bourbon a reinar em Espanha, que, através dos Decretos de Nova Planta, aboliu todos os privilégios da Coroa de Aragão (após a Guerra da Sucessão, na qual Aragão apoiou a facção derrotada, os Áustrias, ao trono de Espanha - conflito em que Portugal participaria). Espanha não é uma nação, ainda que a sua Constituição diga o contrário, ainda que o Tribunal Constitucional, na salvaguarda desta última, reconheça a nação espanhola como a única, não sobrando mais às outras do que, sobretudo Galiza, Euskadi e Catalunha, o estatuto de nacionalidades históricas nos seus respectivos estatutos de autonomia.

     A par do processo histórico, que imprimiu diferenças significativas no seio de Espanha - línguas, culturas e tradições distintas - temos de atender ao peso da economia nos novos separatismos. A Catalunha e Euskadi são as regiões mais ricas de Espanha, contribuindo significativamente para o PIB do país. Sentem, e com razão, que a sua riqueza sustenta um território árido, desertificado e de extensão apreciável. Querem, talvez até acima da independência cultural e espiritual, a independência económico-financeira.

     A Organização das Nações Unidas, através da sua Carta (1945) e do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966), reconhece o direito dos povos à autodeterminação. Surgida no pós-II Guerra Mundial, a Carta, com força jurídica sobre os Estados-membros, veio estabelecer uma nova ordem no sentido da descolonização, ou seja, poderia afirmar que a Carta não quis contemplar outras realidades que não as dos continentes africano e asiático. Entretanto, e muito embora o Estado espanhol seja reconhecido, e na sua integridade territorial, pela comunidade internacional, não podemos, com parcimónia, ignorar o que se passa dentro das suas fronteiras: há nações dentro de Espanha, nações sujeitas a um processo lento e gradual de etnocídio e linguicídio. Também na Galiza, mas na Catalunha, pela sua pujança económica e social, os movimentos revoltosos fazem-se sentir com maior intensidade. O Estado espanhol, unitário, descentralizado - "um estado de autonomias" - não é plurinacional e nem plurilinguístico: há uma nação reconhecida e um idioma dessa mesma nação, cujo domínio é da obrigação de todos os espanhóis. Assim estatui a Constituição Espanhola de 1978, aprovada em referendo.

     As leis fundamentais, que devem estar revestidas de um certo carácter de impermeabilidade e imutabilidade, reflectem o pensamento dominante aquando das suas redacções, espelham a ordem de valores vigente à época e não podem deixar reféns as gerações vindouras. A Constituição Espanhola de 1978, devidamente ratificada pelo povo, não se sobrepõe à ordem jurídica internacional, e o seu valor, para quem com ela não se identifica, é nenhum. Daí que não se lhe justifique, pelos catalães, uma obediência cega. O referendo pela independência do próximo dia 1 de Outubro, a realizar-se, não obstante a campanha persecutória levada a cabo por Madrid, com detenções e apreensões (ao abrigo do artigo 155º da Constituição, que tão-pouco foi oficialmente invocado), será sempre inconstitucional, é evidente, valendo isso de pouco para os catalães, pois os golpes e as secessões, na maioria dos casos, são inconstitucionais.

      Pela comunidade internacional, o silêncio é total. Não interessa a qualquer país europeu ser solidário com separatismos. A centralista França, ali ao lado, e tão admirada por um sector da sociedade espanhola, também tem as suas idiossincrasias internas, não as reconhecendo. Apoiar a Catalunha significaria abrir um precedente, perigoso para as potências europeias. O que se vive na Catalunha é mais do que um desconforto gerado a partir da crise de 2007/2008. Tem raízes profundas.
      Portugal, pelo respeito institucional e pela manutenção das boas relações com o Estado espanhol, segue-os no silêncio. Em abono da verdade, aquando da nossa sublevação de 1640, outras se produziram na Monarquia Católica dos Habsburgo, inclusive na Catalunha, prontamente sufocadas. Para acudir na Catalunha, Filipe III não pôde suster a rebelião em Portugal. Devemos, em parte, à Catalunha o sucesso do 1 de Dezembro, que depois, por nossa conta e com as alianças que firmámos, tivemos de o defender por longos e dolorosos vinte e oito anos de guerra com Madrid.

      Revejo-me, aliás, na Catalunha. E é este exercício que exorto a que todos os portugueses façam. Os catalães querem o mesmo que nós quisemos no século XVII, e o estado actual da Catalunha, com um forte predomínio castelhano, pelas migrações durante o regime franquista, seria exactamente o nosso, ou pior, que Portugal não tem uma economia e uma sociedade tão dinâmicas. A Galiza, já praticamente descaracterizada na sua cultura e no seu idioma, será o exemplo mais fiel do que nos teria esperado nestes últimos séculos: repressão da língua, um quadro terrível de diglossia e de desprestígio da nossa cultura e das nossas tradições.

      Não sei se o movimento pela independência da Catalunha terá êxito. Até posso, no meu íntimo, duvidar. Madrid dispõe dos meios necessários para pôr cobro aos independentismos, desde logo através das forças militarizadas do país. Mas já perdeu. Os alicerces estão corroídos pelas perturbação. Será difícil repor a ordem continuamente se os catalães insistirem no projecto de independência. Impérios caíram no passado. Para Portugal, uma vez mais, a Catalunha soberana ajudaria a contrabalançar a hegemonia castelhano-espanhola na península. Isto sem esquecer a pequenina dívida de gratidão. Se em Espanha houvesse a cultura democrática do Reino Unido, o referendo teria o aval do governo central, à semelhança do da Escócia, contornando-se o quadro actual de crise entre as instituições.

17 de setembro de 2017

O fim da crise?


   A agência de rating Standard & Poor's, uma das creditadas pelo Banco Central Europeu, norte-americana, numa decisão que a todos surpreendeu, retirou Portugal do nível BB+, passando a um confortável BBB-, ou seja, estamos acima do nível que ficou conhecido por lixo. Há cinco anos e meio que todas, excepto uma, nos mantinham como fortes candidatos ao incumprimento, em risco, instáveis. A retoma económica que se vem verificando, e sem aviso que o indicasse, levou a S&P a reconhecer os esforços que Portugal e o seu povo têm vindo a empreender.

   Estas agências, mau grado tudo o que se lhes imputa, desempenham, goste-se ou não, um papel determinante, a ponto de o BCE, o nosso principal financiador, lhes reconhecer vantagens. A decisão surgiu no seguimento da recuperação económica do país, com  a diminuição do desemprego, com o menor défice já registado, com a curva descendente do endividamento e da dívida externa, e a ascendente do PIB, e com a bem sucedida recapitalização da CGD. O país está melhor, é indesmentível. A confiança das famílias aumentou. Tivemos, em anos, o maior número de estudantes a ingressar no ensino superior.

    Os investidores terão em Portugal outra opção. Por sua vez, as empresas portuguesas conseguirão financiamento externo mais facilmente, já não dependendo apenas de uma única agência de rating, canadiana, tida como menor, a DBRS, que não desceu Portugal para um nível de junk. O efeito na economia, como é expectável, será positivo, com a diminuição aguardada dos juros da dívida soberana.


    O PSD, através do seu presidente, veio reclamar a sua participação nesta vitória, que é, em primeiro lugar, dos portugueses. A austeridade ideológica falhou. Não foi a responsável pela nossa recuperação. A mudança nas políticas obstinadas de contenção garantiu que a nossa economia crescesse, repondo-se salários e pensões, diminuindo-se a carga fiscal, estimulando-se o consumo e aumentando-se a confiança dos investidores portugueses e estrangeiros. As políticas do PSD e do CDS falharam rotundamente, e dia após dia vamos tendo sucessivas confirmações dos seus sofismas.

    Naturalmente, teremos de manter a prossecução deste equilíbrio. Com a retoma económica, auguro novas exigências, planos mais ambiciosos. PCP e BE apoiarão a actual solução governativa enquanto tal não os prejudique. É importante, para o PS, assegurar o entendimento com os seus parceiros à esquerda e cumprir com Bruxelas. Negociar e ceder, ontem como hoje, são as palavras de ordem. Não podemos tropeçar.

10 de setembro de 2017

Os portugueses, a xenofobia e o racismo.


   O Estado Novo de Oliveira Salazar, decrépito, caiu há quarenta e três anos. As teorias que o ajudaram a sustentar, em todo o caso, persistem. Temo-nos como mais permissivos, mais receptivos à diferença, mais empenhados na arte de bem receber. Em abono da verdade, em Portugal não verificamos a existência de conflitos étnicos ou raciais. As comunidades estrangeiras integram-se bem na sociedade portuguesa. Podemos, então, inferir que somos menos xenófobos e racistas?

    A discriminação racial é um fenómeno complexo, comporta nuances. Ofender um cidadão de origem africana, pela sua cor de pele, é racismo, tal como o é a recusa em arrendar-lhe uma casa por semelhante motivo. E será neste patamar em que estamos. Vários estudos recentes, que não serão mais do que convicções individuais, procuram elucidar-nos sobre a problemática do racismo no nosso país. Surgimos, então, como os mais racistas entre os europeus, ou pelo menos aqueles cujo preconceito está mais interiorizado, mascarado, menos ostensivo. Passámos, em décadas, dos menos aos mais. Aí reside o problema. Da mesma forma em que nos tínhamos como mais tolerantes, e para tal contribuiu a teoria do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre, que a determinado momento veio justificar a nossa permanência no ultramar, alguns viram-se na necessidade de combater essa formulação quase intrínseca em cada português, procurando substitui-la por uma que nos atribui índices terríveis de discriminação racial. Como há dias li, por um autor que não fixei, os portugueses estariam entre os que mais acreditavam em superioridade rácica.

    Não irei abordar, porque julgo irrelevante na tónica que pretendo imprimir, a discriminação racial sobre pessoas de origem europeia em África, inclusive nos países de língua portuguesa, que a há. Existe e deve ser combatida. Propagam, no ensino, que os portugueses mais não fizeram do que explorar e subjugar. É uma visão politizada e perigosa. E há, inclusive, por Portugal, focos de racismo que visam pessoas mulatas, por parte de indivíduos de pele negra.

    Considero imperioso, sim, que tenhamos em atenção que o racismo e a xenofobia subsistem no nosso país, muito embora dissimulados, aparentando ser uma ligeira desconfiança. Negá-los foi o nosso erro.

5 de setembro de 2017

Ainda o Acordo Ortográfico.


   O assunto está praticamente dado por encerrado entre todos, não obstante ainda proliferarem movimentos que se lhe opõem. Entre os organismos estatais, foi adoptado; órgãos de Comunicação Social e demais imprensa, de igual modo, gradualmente o implantaram, com uns quantos que se recusam. Há individualidades que lhe fazem frente, e eu, um fiel apoiante, vejo-me do outro lado. Não farei militância anti-AO, se bem que lhe retirei todo o apoio. Torna-se oportuno contextualizar.

    Quando o AO entrou em vigor em Portugal, adoptei-o na minha escrita, inclusive no blogue. Por pouco tempo, porque cedo me dei conta da minha impossibilidade em adaptar-me às novas regras, ainda que as tenha, por conta própria, estudado. Esteticamente, foi-me impossível. Mantive, entretanto, o meu apoio ao Acordo. Perfilhei da maioria das razões invocadas pelos seus defensores, as quais expus aqui no blogue - tenho textos escritos, antigos, sobre esta matéria; por 2011, inclusive, lerão textos meus com a ortografia reformada. O principal argumento prende-se à disparidade entre as normas portuguesa e brasileira. Consoantes mudas, acentuação gráfica, sobretudo, o que levava, numa primeira análise, a que os leitores se apercebessem das divergências quase incomportáveis num mesmo idioma, divergências essas que o enfraqueciam no plano internacional, designadamente na hora de um aluno escolher entre qual norma aprender. Anos depois, continuo a considerar este argumento como aceitável e pertinente. A Língua Portuguesa queda enfraquecida com tamanhas, embora não abismais, diferenças, que existem nalguns idiomas, como no inglês, mas que não existem noutros, como no castelhano, sendo que o português goza de bastante menos prestígio do que ambos.

     O que terá mudado? Sucintamente, o modo como encaro o Acordo. Continuo a ser partidário de uma uniformização, opondo-me veementemente ao processo em curso de simplificação. O Acordo Ortográfico de 1990 descaracteriza o idioma. A raiz etimológica, em detrimento do critério meramente fonético, sofreu um duro golpe. O primeiro foi-lhe dado justamente por Portugal, em 1911. Não sou um purista; todavia, não posso compactuar com este atentado ao idioma. Uniformização ortográfica, sim; AO de 1990, não.

     Também mudou a minha percepção política. Portugal viu-se quase que compulsivamente obrigado a ceder. Propôs-se, em 1945, que o Brasil reintroduzisse as consoante ditas mudas. O Brasil rejeitou. Quarenta e cinco anos depois, foi Portugal que se comprometeu em eliminá-las. Houve uma pressão desmedida sobre Portugal, que ainda é, muito embora geográfica e demograficamente menor, o país que viu nascer a Língua Portuguesa, com a Galiza - o idioma surgiu justamente na actual Galiza e no norte de Portugal, na Gallaecia. Outrossim, o Acordo serve propósitos duvidosos de uma parte da esquerda brasileira: simplificar, custe o que custar, porque, segundo defendem, " o português é difícil " (soube de um plano que preconizava, sem mais, a abolição de toda a acentuação gráfica). Seria a lógica de um inglês simples aplicada a um idioma romance. Talvez num futuro acordo, não? Pois não. Jamais. O mercado lusófono em África e na Ásia, em Timor, foi bastante sedutor às editoras do país irmão. O Acordo Ortográfico, sendo adoptado pelos PALOP e por Timor, derrubaria todos os entraves à comercialização de livros brasileiros na África Lusófona. É uma especulação válida, um tanto ou quanto demagógica, aceito, mas não é, de longe, o que me fez recuar. É apenas um exemplo dos interesses que se movimentam à retaguarda de um acordo aparentemente desprovido de qualquer outra intenção que não a defesa do idioma uno e coeso.

     O Acordo Ortográfico aproveita ao Brasil. Aproximou-se a ortografia da norma brasileira e simplificou-se. As mudanças no Brasil foram mínimas. Aboliu-se o trema e pouco mais. Não houve uniformização harmoniosa e razoável; houve, sim, um país que se soube impor sobre os seus parceiros. Mérito do Brasil. Inteiramente. Ora, não me é permitido transigir com um cenário que em nada dignifica as nossas relações no seio da CPLP e, menos ainda, a Língua Portuguesa, que considero um património imaterial de todos os lusófonos, não só dos brasileiros e dos portugueses, verdadeira pátria para mim, citando Pessoa.

     Serei sensível a todos os projectos equitativos de uniformização que não comportem lacunas e casos omissos como este (des)acordo (saberão, certamente, que o Acordo não uniformizou vocábulos como Humidade, em Portugal, Umidade, no Brasil, ou, citando outro exemplo, Beringela, em Portugal, Berinjela, no Brasil). Prevê duplas grafias, cá e lá. Surreal. Em breve, nem saberemos como escrever. O caminho para a arbitrariedade linguística está a descoberto. Há casos em que a consoante é ou não articulada. Aspeto e Aspecto, nomeadamente. Em Portugal, há quem a pronuncie, há quem não a pronuncie. O que dizer de Recepção, que no Brasil assim se escreve, e que em Portugal passou a Receção? Paradoxalmente, em razão do critério fonético, eis um vocábulo em que o Acordo veio desarmonizar. Receção que, diga-se, corre o risco de ser confundida com Recessão, de valor semântico totalmente distinto. Não sairia daqui.

     Não se brinca com uma língua comum a povos, com o idioma que aprendemos desde o berço, que utilizamos para exprimir os nossos sentimentos, medos, estados de espírito. O idioma faz a nossa identidade, liga-nos a uma sociedade, a uma nação. No limite, distingue-nos de croatas e de mongóis. É um elemento para ser encarado com toda a seriedade, e não pode ficar à mercê de conveniências e de politiquices baratas.